quarta-feira, junho 11, 2008

Nós somos frutos do nosso meio. E ser fruto dos anos 80 faz com que toda a nostalgia seja meio estranha. Nós nascemos em uma época onde o conceito de "politicamente incorreto" era ser pró-militarismo e só: fumar era legal (a indústria de doces e de canetinhas se aproveitou muito disso), o mais próximo de cancerígeno que algo podia ser era ser fabricado entre 21/6 e 21/7, ecologia era no máximo o estudo que o som faz quando você está num ambiente vazio. Pois é: esse é mais um daqueles posts que assassina o português. Mas, é claro, eu cresci ouvindo o Mussum falar "cacildis".

Nos anos 80 nossas provas eram rodadas em mimeógrafos, ou seja, quando a gente terminava tinha que baixar a cabeça e ficar baforando o etanol que exalava do papel. As provas eram preenchidas com lápis que tinham a tabuada impressa neles (nos incentivando à cola) e borrachas Faber-Castel (que hoje não são mais fabricadas pore serem cancerígenas). Nosso lanche era uma ode à má alimentação: comíamos tanto açúcar e gordura trans que me espanta não sermos todos verdes com quatro braços.

Isso sem contar o nosso cancioneiro popular infantil, muito bem lembrado por Lu, a única pastora de ovelhas que eu conheci nesse planeta. Vamos a alguns exemplos porque todo post meu tem citação:

  • Atirei o pau no gato pregava maltrato aos animais. Você atira o pau no gato pra quê? Pra ver ele berrar (sem pensamentos zoofílicos, por favor)? E quem diabos é a dona Xica? Dona do gato? Xica da Silva? E é dona Xica ou dona Xi Caca?
  • Dorme neném que a cuca vem pegar: Bem reconfortante essa né? "Olha filinho, deita no seu berço que um jacaré com cabelo laranja tá vindo, tudo bem? Se ele chegar me avisa que o Saci tá esperando ele";
  • Boi da cara preta é outra que deixa as crianças bem sossegadas. Algo do tipo tribunal de crianças, que nem acontece no Texas. "Você Joãozinho, está sentenciado a morar para o resto da vida com o Boi da Cara Preta, doravante chamado de Boi, por caretofobia". Pelo menos nos Estados Unidos a constituição não permite penas incomuns como essa;
  • Ciranda cirandinha quase foge. Pegue os versos finais: "o anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou". Fato 1: puta Maria Gasolina, não? Ah, o fato dos dois versos serem ditos em seqüência não implica em fatos relacionados? Troquemos então os versos para "Presidente fez merda e a Petrobrás ele entregou. O gás agora é pouco e o preço aumentou" (Olha só! Eu posso fazer cantigas infantis políticas! Com rimas!). Fato 2: escreve uma letra de música hoje com as palavras "me tinha" sem ser sertanejo ou funk carioca e dê para uma criança cantar;

Repare que não entramos no repertório da Xuxa, Angélica, Mara Maravilha, Sérgio Mallandro e por aí vai... senão vocês iriam ver o que é realmente ser exposto a material perigoso.

Decadazinha estranha essa: Michael Jackson não era cinza, as pessoas achavam os cabelos da Cher bonitos, uma das mulheres mais bonitas do Brasil era um homem e nosso conceito de moda era laranja fluorescente e verde-limão. Deus estava numa trip de ácido? Os acontecimentos dos anos de 80 a 89 foi escrito pelos roteiristas de Bozo, o palhaço? Por quê diabos eu tinha um ioiô que acendia do lado?

As crianças de hoje não sabem o que perderam.

4 comentários:

Anônimo disse...

extremamente nostálgico o post!
apenas dois "apontamentos": faltou a música que mais me traumatizou, "O Cravo e a Rosa", e as minhas ovelhas são virgens e albinas ;D

Diego Bellangero disse...

Bênção pastora!

Verdade! Perdôe a limitação de minha memória: como eu pude esquecer um caso tão clássico de falta de ecologia e a retratação da violência doméstica!

Imagine a cena na delegacia das flores:

*Rosa sentada na frente do escrivão Cactus, chorando e toda despetalada*
- Ele... *soluço* ele é um bruto... ele não é um vegetal... ele é um animal, isso sim!

Agora o outro lado, no hospital botânico:

*Doutor Crisântemo e enfermeira Trepadeira conversando nos corredores*
- Viu só o Cravo? Apanhou de uma florzinha! Hahaha... olha só onde esse mundo vai parar! Depois ainda dizem "delicada como uma rosa"... no mínimo Rosa é nome de guerra e ele tá pegando um copo de leite, isso sim...

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk...
Estou me mijando de rir ok!
Aplausos para: "Pegue os versos finais: "o anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou". Fato 1: puta Maria Gasolina, não?"

Me fala quais são as drogas depois ok?

;*
muahh

Diego Bellangero disse...

Oie!

Obrigado pelo comentário: é sempre bom fazermos a observação de que o Eu Lírico desses versos, como diria Gregório de Matos, é uma vadia rasgadeira. Claro que ele utilizaria termos bem mais interessantes...

No atual momento, limpo... rs.. Lembre-se sempre que eu já vivo numa realidade alternativa.

Muaaaaaaaaaaaah!